Da redação
O avanço de “estradas fantasmas” na Amazônia, construídas sem licença e ligadas a atividades ilegais como desmatamento, garimpo e pecuária, foi tema de estudo coordenado por Sonaira Souza Silva, pesquisadora da UFAC. Segundo o levantamento, desde 1990 a malha viária do Acre cresceu em média 540 km por ano, com picos recordes em 2019 e 2020, durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), quando mais de 1.400 km foram abertos anualmente. Em 2025, já no governo Lula (PT), foram registrados 1.165 km de novas vias.
As chamadas “estradas vírus”, como define Silva, representam pelo menos 30% dos trechos recentes. São trilhas abertas inicialmente para exploração ilegal e ampliadas posteriormente por prefeituras ou governos estaduais, frequentemente com uso de emendas parlamentares e sem licenciamento ambiental. Essas vias cortam áreas protegidas, bloqueiam cursos d’água e fogem à fiscalização, levando a novos ciclos de desmatamento.
O estudo revela que cerca de 3.000 km de estradas foram construídos dentro de unidades de conservação desde 1990, sendo 52% delas nos últimos seis anos. Apenas em 2023, foram identificados 186 km de novos ramais na Resex Chico Mendes e 67 km na Resex Cazumbá-Iracema. Além disso, 35% das estradas abertas estão em projetos de assentamento, 28% em propriedades privadas e 25% em terras públicas.
O levantamento também destaca o ramal Barbary, que liga Cruzeiro do Sul a Porto Walter, alvo de investigação pela Polícia Federal após denúncia de invasão de terra indígena e uso de recursos parlamentares para desmatamento. “É um exemplo importante dessa abertura sem planejamento ou estudos de impacto”, afirma Silva.
O ICMBio atribui a ampliação da malha viária nas reservas à mudança econômica das populações locais, com introdução da pecuária e perda de valor do látex, e afirma que a fiscalização é feita conforme a lei. O governo do Acre também defende que as obras atendem a demandas de integração, acesso a serviços e escoamento da produção, sendo irregularidades apuradas pelo Imac.






