Ponha-se à frente das ideias do século

ideiaFrase de Louis Napoleon continua cada vez mais atual.

“Ponha-se à frente das ideias do século e aquelas ideias seguirão você e lhe darão sustentação.
Ponha-se a reboque delas e elas o arrastarão.
Ponha-se contra elas e elas o destruirão”
(Louis Napoleon ‘Fragments Historiques’)

Louis Napoleon escreveu esta frase por volta de 1839. Doze anos ainda o separavam da conquista do poder, e do início da implantação do II Império. Exilado na Inglaterra, após o fracasso do golpe de Strasbourg e antes de igual fracasso na tentativa de tomar Boulogne, o sobrinho de Napoleão I refletia sobre a sua pretensão de recuperar o trono que havia sido de seu tio.

Louis Napoleon, líder voluntarista

Naquele momento o poder não poderia estar mais distante e a pretensão pareceria, a qualquer um, despropositada. Não obstante, Louis Napoleon, um voluntarista, obcecado com a idéia de que o tempo dos Napoleões não havia ainda passado, não abandonava sua esperança, manifestando a um só tempo sua disposição para esperar e confiança em si mesmo, no “moto” tantas vezes repetido: “J’ espère em Dieu et je crois en moi”.

Esperar e confiar foi a receita que, a contragosto, todos os líderes políticos dos tempos modernos que conquistaram o poder, tiveram que se submeter. Quem a ela não se submeteu foi derrotado e até liquidado.

O líder voluntarista, como o próprio nome indica, atribui à sua vontade política, e de seus liderados, um poder desproporcional. Cedo descobre que não bastam a vontade, a coragem, o idealismo, o sacrifício, para conquistar o poder. O sucesso somente virá quando a vontade estiver em sintonia com “as ideias do século”, “o momento histórico”, o “sentimento coletivo”, a “tendência da opinião pública”.

Como Louis Napoleon, todo líder voluntarista sai da reflexão para a ação, mediante um lance político ousado, com o qual, acredita, conquistará entusiasmadas adesões e derrubará seus adversários.

Louis Napoleon com a frustrada invasão de Boulogne que durou poucas horas; Fidel Castro com o ataque ao quartel de Moncada em 1953; Hitler com a tentativa de golpe de estado em Munich em 1923; para citar três casos amplamente conhecidos.

Nos três, o resultado imediato foi a derrota, a prisão, e o uso do processo pelos réus como uma oportunidade para denunciar o regime que os derrotara. Tiveram que, a contragosto e na prisão, esperar por um outro momento. Mesmo na prisão, porém, nenhum deles jamais deixou de confiar em si e na vitória final. Outros líderes voluntaristas enfrentaram a mesma situação de maneira diferente. Mussolini, preparou seu lance, a Marcha sobre Roma de 1922, com todos os ingredientes da ousadia e voluntarismo.Convicto de que o momento certo havia chegado, assim mesmo, tomou suas precauções, e, aguardou a uma distância segura, o resultado da ação. Somente depois de plenamente assegurado do sucesso da iniciativa chegou a Roma para tomar o poder. Mussolini combinou as “ideias do século” com o lance ousado e com uma farta dose de cautela. Foi menos heroico, mas não foi preso.

Num trem selado, Lênin viajou à Finlândia liderar revolução russa

Ghandi, entendeu seu tempo (“as ideias do século”), sabia que a conquista da independência não ocorreria de um só golpe, que, ao contrário, seria a resultante de um longo e continuado conflito, uma guerra de atrito, que educaria o povo para a luta e pouco a pouco envolveria milhões de indianos. Para Ghandi (que também foi várias vezes preso) não havia conflito entre esperar e agir, agia esperando, e esperava agindo.

Lênin tão voluntarista quanto os outros referidos, em março de 1917 encontrava-se exilado na Suíça, e, numa carta, comentara pesaroso que ele e sua geração já não viveriam para assistir a revolução na Rússia. Que ela só viria bem depois de sua morte.

Um mês depois, viajava no trem selado rumo à Estação Finlândia, para liderar a revolução. Lênin havia feito tudo que um voluntarista poderia fazer para provocar a revolução. No exílio Suíço esperava, sem muitas esperanças… As “ideias do século” vieram ao seu encontro e ele, não só assistiu como liderou a revolução.

Todos os líderes aqui citados, acabaram por chegar ao poder que ambicionavam. Seu voluntarismo, entretanto, só produziu resultados quando, depois da espera e da prisão, o tempo da mudança chegou.

Na linguagem de Louis Napoleon, quem pôs-se à frente das “ideias do século”, mesmo que tenha se antecipado demasiadamente à elas, e que, como consequência, tenha sido frustrado na primeira tentativa, tenha sido preso, e tenha sido forçado a esperar mais do que desejaria (vale lembrar o caso de Nelson Mandella na África do Sul), acabou triunfando. As ideias os carregaram e os sustentaram. Quem se opôs à elas, mais cedo ou mais tarde, acabou sendo expulso do poder que ocupava.

Os exemplos históricos referidos são de revolucionários, que lutavam para destruir um regime e substituí-lo por outro. A lição de Napoleão III, entretanto, é mais abrangente. Em democracias, nas quais as mudanças vêm com as eleições e não com a tomada do poder pela força, também há voluntarismo e também há mudanças que são sustentadas e legitimadas pelas “ideias do século”.

Esperar e confiar são também a receita do sucesso de um líder político numa democracia. O “roteiro” será, menos dramático, menos heroico que em revoluções, mas, sem dúvida alguma, igualmente verdadeiro.

Fonte: Política para Políticos

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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