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Votar contra o reforço ao BRB é transformar um problema técnico em palanque político

Por Sandro Gianelli

Projeto do GDF busca garantir capitalização do banco e preservar serviços essenciais; rejeição sem alternativa concreta pode penalizar servidores e a população do DF

O envio do projeto de lei do Governo do Distrito Federal à Câmara Legislativa para autorizar a recomposição e o reforço do capital do BRB coloca os deputados distritais diante de uma escolha que vai além da disputa partidária. Trata-se de decidir se o banco público do DF terá as condições necessárias para manter sua estrutura de capital, cumprir exigências regulatórias e assegurar a continuidade dos serviços prestados à população. Votar contra, sem apresentar uma solução técnica viável, será um gesto mais próximo da politicagem do que da responsabilidade pública.

O texto encaminhado prevê autorização para recomposição, reforço e ampliação do patrimônio líquido e do capital social do banco, além da possibilidade de garantia patrimonial de bens. A medida, segundo o governo, está alinhada às normas do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central e integra um plano de capital que já vem sendo implementado pela nova diretoria para garantir liquidez e fortalecer os indicadores financeiros da instituição.

É natural e saudável que haja debate. A oposição cumpre seu papel ao fiscalizar, questionar e exigir transparência. No entanto, transformar a discussão técnica sobre estrutura de capital em trincheira ideológica não contribui para resolver o problema.

O BRB não é apenas uma instituição financeira qualquer. É o banco que operacionaliza parte relevante da folha de pagamento de servidores, financia políticas públicas e oferece crédito a milhares de famílias e empreendedores do Distrito Federal. Sua solidez impacta diretamente a economia local.

Rejeitar o projeto por mera conveniência política pode gerar insegurança no mercado, afetar a confiança de investidores e clientes e, em última instância, comprometer empregos e serviços. São milhares de trabalhadores, entre funcionários do banco e terceirizados, que dependem da estabilidade da instituição. Ignorar esse aspecto é fechar os olhos para o efeito concreto de uma decisão parlamentar.

O discurso fácil de “votar contra o governo” pode render manchetes e aplausos nas redes sociais. Mas, na prática, a conta recai sobre quem menos participa do embate político: servidores do banco, correntistas, pequenos empresários e cidadãos que utilizam seus serviços diariamente.

Se há divergências quanto à forma, que se proponham emendas, ajustes, mecanismos adicionais de controle. Se há dúvidas, que se convoquem audiências públicas, especialistas e representantes do Banco Central. O que não se pode admitir é o voto contrário como gesto simbólico, esvaziado de proposta alternativa consistente.

A capitalização de um banco público não é um cheque em branco. Exige transparência, governança e fiscalização rigorosa, pontos que devem ser cobrados e acompanhados pela própria Câmara Legislativa. Mas bloquear a medida sem apresentar outro caminho técnico é arriscar a estabilidade de uma instituição estratégica para o DF.

Parlamentares eleitos têm o dever de pensar além do calendário eleitoral. A decisão sobre o projeto do BRB é, antes de tudo, uma escolha sobre responsabilidade institucional. Politizar um tema técnico pode até produzir dividendos partidários no curto prazo. No médio e longo prazos, porém, o prejuízo pode ser coletivo.

A oposição tem o direito de divergir. Mas terá também de assumir, perante a sociedade, as consequências de transformar uma discussão sobre sustentabilidade financeira em mero palco de disputa política.