Como os eleitores tomam suas decisões

Compreender o comportamento do eleitor sempre foi um desafio para os cientistas políticos.

Não são poucas as linhas de interpretação que buscaram produzir explicações que, com critérios metodológicos e teóricos próprios, procuraram não apenas compreender as razões que orientam as escolhas dos eleitores, mas também, construir mecanismos preditivos, ou seja, instrumentos capazes de “antecipar” o resultado da eleição.

Todas estas correntes pressupunham que o comportamento eleitoral pudesse apresentar algum grau de linearidade, o que, em outras palavras quer dizer, que uma vez descobertos os fatores que motivam determinadas escolhas, seria possível esperar uma continuidade, ou uma estabilidade no comportamento eleitoral.

Recentemente, pesquisadores do comportamento eleitoral lançaram mão de conceitos psicanalíticos para interpretar o comportamento a partir de modelos cognitivos, ou seja, modelos que buscam identificar os elementos que podem motivar as escolhas dos eleitores a partir da forma como esses interpretam a realidade.

Breve resumo das teorias do comportamento eleitoral

Podemos dizer que existem basicamente três grandes modelos teóricos a respeito do comportamento eleitoral: o modelo de Michigan, o modelo sociológico e o modelo da escolha racional.

Angus Campbell

MODELO DE MICHIGAN – o modelo de Michigan foi elaborado por pesquisadores da Universidade de Michigan nos anos 1950, sob a liderança de Angus Campbell, tendo como obra expressiva “The American Voter”. A principal metodologia desta corrente eram os surveys. A partir dos dados coletados por uma amostra, os pesquisadores de Michigan procuravam extrair inferências capazes de predizer o comportamento geral dos eleitores.

Grande parte das teorias produzidas pela Escola de Michigan teve influência da psicologia social. A orientação para decisões políticas, segundo os teóricos de Michigan, assumidas pelos indivíduos, começa a se delinear a partir do ambiente social. Nesse sentido o enunciado básico desta teoria é o de que, indivíduos em contextos socio-econômicos semelhantes tendem a votar de maneira semelhante.

O resultado prático desta teoria mostrou que a hipótese era válida apenas para 15% do eleitorado, ou seja, a maioria dos eleitores apresentava um comportamento errático. Esta constatação ataca o coração da teoria: se o comportamento futuro dos indivíduos é fruto do seu sistema de atitudes perante o mundo e, se essas atitudes não são coerentemente estruturadas, então não é possível prever nada. Para resolver este dilema os teóricos de Michigan propõem dois caminhos: o grau de centralidade e o grau de motivação para a política. O primeiro aspecto diz respeito à centralidade da política na vida dos indivíduos, ou seja, a diferença entre o padrão de um indivíduo com maior sofisticação intelectual e indivíduos menos sofisticados. O segundo aspecto diz respeito a fatores conjunturais que podem incidir sobre a motivação individual para o voto.

Eleitor abraça vice dos EUA, Joe Biden
MODELO SOCIOLÓGICO – A interpretação sociológica do voto tem como preocupação fundamental os fenômenos subjacentes à decisão do voto. Entre tais fenômenos está na constatação de que as instituições, as práticas, as ideologias e os objetivos políticos que orientam o comportamento eleitoral podem ser presumidos a partir das divisões, clivagens, existentes em uma determinada sociedade.

Portanto, não são os indivíduos e sim os coletivos sociais que imprimem a dinâmica política e o que precisa ser explicado são os resultados agregados das ações políticas.

Quem age é o indivíduo (que vai votar), mas para o Modelo Sociológico o ato individual não é totalmente isolável e sim resultado de interações sociais. Em outras palavras, o Modelo Sociológico busca compreender como as relações sociais interferem no voto. Nesse sentido, o Modelo Sociológico pode ser dividido em duas correntes. De um lado a corrente marxista que aponta a posição de classe como determinante do voto. De outro lado, o individualismo metodológico, que busca uma relação causal entre trajetórias individuais e relações sociais.

Assim como o Modelo de Michigan, o Modelo Sociológico também faz uma distinção entre eleitores cativos, aqueles que possuem uma identidade partidária estabelecida e eleitores voláteis, que definem seus votos por meio de fatores conjunturais determinados pela issue oriented.

MODELO DA ESCOLHA RACIONAL – o modelo da escolha racional está sintetizado na obra “Uma teoria econômica da democracia”, produzida pelo cientista político Anthony Downs nos anos 50.

Para Downs, os eleitores decidiriam seu voto a partir de um cálculo acerca de possíveis benefícios a serem obtidos com a vitória desse ou daquele candidato. Dessa forma, eleitores que pretendiam pagar menos imposto, optavam por partidos e candidatos que apresentavam propostas de redução da carga tributária. Já os eleitores que esperavam uma ampliação dos serviços públicos, votavam em propostas de candidatos geralmente de esquerda.

O grande problema da teoria da escolha racional, é que tal teoria atribui aos eleitores um tipo de racionalidade que somente pode ser obtida com um elevado grau de informação, informação essa nem sempre acessível para a imensa maioria do eleitorado.

Fonte: Política para Políticos

COMPARTILHAR
Artigo anteriorDireto do Twitter – Alberto Fraga
Próximo artigoEm defesa do marketing político
Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; editor do Portal Conectado ao Poder; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 6h às 8h, na Rádio 104,1 Metrópoles FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

*

code