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“Cerca de 70% dos casos de feminicídio, já tiveram agressões anteriores”, afirma delegada Karen Langkammer

Da redação do Conectado ao Poder

Na última segunda-feira (16), Karen Langkammer, delegada da DEAM II de Ceilândia participou do programa “Rota Atividade” na rádio Atividade FM. Durante a entrevista, a policial comentou sobre a chocante realidade dos casos de feminicídio no Distrito Federal. Além disso, ela comentou sobre como as forças de segurança tem atuado para auxiliar essas mulheres e prevenir novos casos. O Rota Atividade é de segunda a sexta-feira, das 6h às 8h.

Karen enfatizou que, em muitos casos, existe uma sequência de violência prévia que antecede o crime do feminicídio, mas também destacou a existência de situações em que nenhum sinal aparente de suspeita é evidente. “A gente verifica que existem 2 viés, a evolução do ciclo da violência, porque toda a violência começa com uma ofensa verbal, com uma ameaça, com uma via de fato. Vias de fato é uma agressão física que não deixa uma lesão aparente, então é um puxão de cabelo, esses são os primeiros sinais de que existe uma coisa errada ali“. A delegada ainda detalhou um perfil de alerta. “Deixa eu ver o seu celular?! Com quem você está conversando? Essa perseguição, o ciúme extremo, aquela pressão psicológica, muitas vezes ofendendo a dignidade dessa vítima e diminuindo a mulher como uma pessoa do gênero feminino, por ela ser mulher, enfim, vários xingamentos que ela se sente diminuída e isso vai evoluindo. E quando esse ciclo de violência vai se repetindo, pode vir a combinar, um feminicídio, pode estourar essa bomba-relógio e evoluir para realmente tirar a vida dessa mulher. Mas existem outros casos que nós não temos sinais anteriores e simplesmente a bomba relógio explode”.

De acordo com a Delegada é alarmante constatar que uma parcela significativa das vítimas de feminicídio não registra queixas prévias à polícia. Durante a entrevista na rádio, ela explicou que muitas mulheres enfrentam obstáculos que as impedem de denunciar a violência, como o receio de retaliação por parte do agressor, o estigma social ou a falta de recursos para se proteger. “A maioria tem esse histórico. A gente acompanha que cerca de 70% dos casos de feminicídio, já tiveram agressões anteriores, só que o número de registros de ocorrências é muito pequeno, porque as vítimas não procuram a delegacia, elas não querem prejudicar. Às vezes elas também não acreditam no sistema, na punição”, explicou.

Segundo ela, essa relutância em buscar ajuda torna ainda mais desafiador para as autoridades identificar e intervir em casos de risco. A Delegada enfatizou a importância de criar um ambiente seguro e de apoio para as vítimas, incentivando as denúncias. “Até a questão de você verificar se é um caso de pedir uma prisão, isso tudo eu preciso ter um histórico. Se as vítimas não denunciarem, se elas não registrarem ocorrência, a gente não tem essas informações na delegacia para trabalhar, e dificilmente a gente vai entender que aquele caso ali vai virar um feminicídio. A gente precisa da ajuda mesmo, da população, das mulheres e da sociedade em geral“, alertou.

Ao jornalista Sandro Gianelli, a delegada enfatizou a importância das denúncias, seja pela vítima ou qualquer outra pessoa. Ela ressalta que para denunciar algum caso de violência não é necessário se identificar. “Essa desconfiança, o medo, também te prejudicam, porque se você está num relacionamento afetivo, você gosta daquela pessoa, então você acaba justificando as ações, mesmo que sejam ações ruins contra você, para manter aquele relacionamento, para não prejudicar aquele homem e não registrar a ocorrência. Como a gente não tem tantas informações sobre o histórico de violência, muitas vezes não é ligada a esse alerta. Será que esse caso aqui pode culminar no feminicídio?

Após ser questionada sobre possíveis conselhos às mulheres, Karen Langkammer, destacou. “O primeiro ponto é você se cuidar, se amar e se valorizar. Porque se você se cuida e se ama, você vai dar o seu valor necessário e vai entender que não é um homem que vai fazer você feliz. A partir disso, observe todos os sinais. Muito ciumento, liga um alerta, começa a controlar suas redes sociais, controlar com quem você anda, com quem você fala, ligue o sinal de alerta”. Ela ainda reforça a necessidade de buscar ajuda. “Passamos por agressões, sejam elas verbais ou físicas. O alerta já explodiu realmente, você não conseguiu contornar a situação na sua casa, então vamos chamar o Estado, as forças de segurança”.

Além disso, a Delegada destacou que existem programas e recursos de proteção disponíveis para as vítimas. “Após a denúncia ela já sai com um aplicativo viva-flor. É a partir do momento que o agressor se aproxima dela, ela vai pressionar aquele botão por alguns segundos e a polícia militar vai ser acionada imediatamente. Inclusive liga o microfone nesse dispositivo, então é possível verificar”.

Ela incentivou as mulheres a não hesitarem em denunciar a violência, assegurando que a polícia está pronta para agir e oferecer o apoio necessário para ajudá-las a romper o ciclo de abuso e construir um futuro mais seguro e saudável. “A vítima vem para a delegacia, registrar a ocorrência policial e a gente oferece para ela as medidas protetivas de urgência. Essas medidas protetivas que são geralmente proibição de aproximação, proibição de contato, afastamento do lar. Elas vão para o juiz, o juiz defere, esse autor é intimado e a vítima pode sair além das medidas protetivas, com um amparo de alguns programas sociais, inclusive com a Casa da Mulher Brasileira, que fica do lado da delegacia”.

A delegada Karen Langkammer fez um apelo direto à comunidade. “Qualquer pessoa hoje pode e deve chamar a polícia quando verificar que tem essa discussão mais exacerbada. É homem e mulher gritando, xingando, na gritaria em casa. No apartamento, chamem, e não dêem uma chance para acontecer. Eu gosto de falar muito que se o vizinho tiver com som alto, a gente liga pra polícia, mas se tiver uma discussão de homem e mulher, não liga e precisa ligar.  Você não vai estar se prejudicando de forma alguma ao noticiar que está tendo uma violência doméstica. Ao contrário, você pode estar salvando uma vida”.