Da redação
Em setembro de 1937, o governo de Getúlio Vargas divulgou o Plano Cohen, um documento falso sobre uma suposta tentativa de tomada do poder pelos comunistas. O plano, elaborado pelo capitão Olímpio Mourão Filho, serviu de justificativa para a decretação do Estado Novo no Brasil, sob o argumento de conter o perigo comunista.
Quase cem anos depois, teorias conspiratórias continuam sendo usadas como ferramenta de mobilização, especialmente pela direita radical, embora também apareçam em discursos de outros espectros políticos. Na última semana, a suspensão de lotes de produtos Ypê pela Anvisa, após risco de contaminação microbiológica, gerou novas suspeitas entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo esses grupos, haveria uma articulação entre técnicos da Anvisa e o governo Lula para prejudicar a Ypê, vista como alinhada ao bolsonarismo. Esse discurso ganhou força nas redes sociais e foi replicado por figuras como Michelle Bolsonaro, os deputados Nikolas Ferreira e Mario Frias, o senador Cleitinho Azevedo, Luciano Hang e Ricardo Mello Araújo.
O histórico da empresa reforçou a narrativa. Três membros da família Beira, dona da Ypê, doaram R$ 1 milhão à campanha de Bolsonaro em 2022, e a empresa foi condenada por assédio eleitoral após promover uma live aos funcionários pedindo votos. Para defensores do ex-presidente, esses fatos justificariam a teoria de perseguição à marca.
Pesquisadores como Guilherme Casarões e Jorge Chaloub destacam que a criação de inimigos é central nessas teorias, que acabam mobilizando a base e reforçando identidades políticas. Em vídeos viralizados, apoiadores simulam consumir o detergente Ypê em desafio às recomendações oficiais, replicando símbolos de pertencimento ao grupo.
Levantamento da Palver apontou que mensagens em defesa da Ypê circularam de forma coordenada, alcançando grupos públicos no WhatsApp. As teorias envolveram ainda acusações de envolvimento do empresário Joesley Batista, dono da concorrente Minuano, ampliando a narrativa de oposição entre elites políticas, empresas e o “povo comum”.






