Da redação
Um estudo publicado em 2024 por pesquisadores da China e da França reacendeu o debate científico sobre possíveis padrões de turbulência em “A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh (1853-1890). O artigo, assinado por seis cientistas na revista “Physics of Fluids”, afirma ter encontrado sinais de turbulência — fenômeno físico complexo — nas pinceladas do famoso quadro, com base em análise de 14 vórtices na obra e na aplicação de uma lei de escala proposta pelo matemático Andrei Kolmogorov nos anos 1940.
Entretanto, especialistas em mecânica dos fluidos criticaram duramente o estudo. James Riley, professor emérito da Universidade de Washington, avaliou o artigo como “absurdo”. Ele e outros cientistas publicaram três manisfestações contrárias entre 2024 e 2025, incluindo texto no “Journal of Turbulence”, afirmando que as alegações “seriam normalmente rejeitadas imediatamente por pesquisadores de fluxos turbulentos”.
A controvérsia ganhou novo capítulo em agosto de 2025, quando artigo no “Bulletin of the American Meteorological Society” detectou padrões matemáticos semelhantes na pintura “Uma Mulher Sentada ao Lado de um Vaso de Flores”, de Edgar Degas, obra não relacionada à ideia de turbulência. Segundo os autores, atender a critérios matemáticos não basta para afirmar que exista turbulência real em uma pintura. Yongxiang Huang, da Universidade de Xiamen, um dos autores do estudo contestado, reagiu: “flores não são nuvens” e defendeu a distinção entre as situações comparadas.
Nos desdobramentos seguintes, Riley sustentou que houve erro conceitual na análise original, defendendo inclusive a retratação do estudo de 2024. Huang e sua equipe, em resposta, afirmaram que “a intenção nunca foi diminuir o valor artístico”, mas sim demonstrar que a lei de Kolmogorov-Obukhov-Corrsin também pode surgir na análise de obras de arte.
Para o físico José Luis Aragón, da UNAM (México), que também encontrou indícios de turbulência na pintura de Van Gogh anteriormente, o principal problema é tratar a obra como se ela possuísse a mesma realidade física dos fluidos. Segundo ele, apesar disso, “a luminância contém assinaturas estatísticas reminiscentes de turbulência”, transmitindo a essência desse movimento de maneira impressionante.






